
Nas cortes iluminadas pelo ouro e pela música, nasceu Oneiza: filha da nobreza, criada entre seda, vinho e promessas de um futuro sem sombras. Educada por mestres escolhidos a dedo e cercada por privilégios desde a infância, conheceu cedo o conforto. Mas não a prudência.
Na juventude, passou a frequentar as tavernas reservadas aos ricos e influentes, onde alianças eram seladas entre risos e conspirações. Ali, conheceu tanto homens honrados quanto oportunistas perigosos, com a mesma facilidade. E foi entre estes últimos que seu destino começou a ser traçado.
Entre eles estava Kreatus, um feiticeiro de poder raro, capaz de tocar os véus do tempo e da percepção. Foi ele quem revelou a Oneiza aquilo que poucos mortais ousam sequer imaginar: que a realidade pode ser moldada, transformada e distorcida pela magia.
Curiosa, imprudente e fascinada pelo incrível, ela aceitou aprender. E aprendeu rápido.
Em poucas semanas, Oneiza já manipulava forças simples do arcano com surpreendente facilidade. Seu talento era evidente. Seu futuro, promissor. Foi então que surgiu Kékijah. Ela não era feiticeira. Mas carregava outro tipo de poder.
Numa caverna escondida entre rochas silenciosas, onde rituais eram realizados longe dos olhos do mundo, Oneiza presenciou aquilo que jamais gostaria de ter visto: Um bracelete. Antigo. Luminoso. De um poder assustador.
Kékijah exigiu que Kreatus o selasse no braço de uma mulher desacordada. Era ela, Zakijah.
Kreatus recusou. Disse apenas: “Esse bracelete não é um ornamento. É uma sentença.”Mesmo assim, foi obrigado a obedecer. Sob ameaça invisível, ergueu o cajado e concluiu o ritual. Momentos depois, foi executado. Sem honra. Sem aviso. Sem piedade.
Oneiza tentou gritar. Não conseguiu. Foi capturada antes mesmo de compreender o que havia presenciado. As últimas palavras que ouviu antes da escuridão foram: “Ela viu demais.”
Quanto tempo permaneceu nas trevas? Os pergaminhos não o revelam. Quando despertou, já não era mais uma nobre. Estava nua. Pregada à cruz do Exílio. E em seu próprio braço repousava o mesmo bracelete que vira selar o destino de Zakijah.
Entre febre e sede, um estranho a retirou da cruz apenas para abandoná-la novamente às areias. Foi dele que ouviu, pela primeira vez, o nome que agora carregava: Exilada.
Sozinha no deserto branco, cercada por cadáveres e aves de rapina, três lembranças resistiram à confusão de sua mente: Kreatus. Kékijah. Zakijah.
Guiada pelos rastros da morte e pelos voos dos abutres, Oneiza encontrou sobreviventes que lhe explicaram o que era aquele lugar: As Terras do Exílio.
Foi então que ouviu novamente o nome Zakijah. Agora não como vítima, mas como “uma conquistadora feroz, de trança longa e bela, que vence combates como se o destino lhe devesse favores.”
Se era a mesma mulher que vira desacordada naquela caverna… ainda não sabia. Mas precisava descobrir.
Nas conversas ao redor das chamas, outro nome surgiu como luz na escuridão: Kurak, um feiticeiro que deixara um Tomo sagrado, cujas páginas guardavam ensinamentos arcanos capazes de infundir poder e sabedoria a quem o possuísse.
Sem domínio da espada e sem aliados nas areias, Oneiza compreendeu rapidamente qual seria sua única chance de sobreviver: seguir o caminho que Kreatus lhe mostrara: O caminho da feitiçaria.
Agora ela busca o Tomo de Kurak. Não por poder. Mas por respostas.
Até hoje, Oneiza não sabe quem é Kékijah. Não sabe por que recebeu o bracelete. Nem por que Zakijah foi escolhida antes dela. Mas sabe de uma coisa: há destinos que não podem ser removidos como correntes. Apenas compreendidos.
E Aqui se encerra o primeiro registro do Pergaminho de Oneiza, preservado nas Bibliotecas Cinzas para que aqueles que vierem depois possam conhecer o peso das escolhas que moldaram este mundo
Que os sábios o leiam. Que os loucos o ignorem. Que o destino faça o seu trabalho.
